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INGESTÃO DE SÓDIO NO USO DE ESPESSANTES A BASE DE GOMA PARA DISFAGIA

Gabriela F de Oliveiraa, Liz C Fabreb, Mariane B Teixeirab, Álvaro A Barcelos Júniob, Camila M Pereiraa

aDepartamento técnico da Prodiet Medical Nutrition, Curitiba, PR. bResidencial Geriátrico Nova Belluno, Siderópolis, SC.

 A disfagia orofaríngea é caracterizada pela impossibilidade da deglutição de forma segura, sendo reconhecido como problema de saúde pela organização mundial de saúde1.

Tal condição clínica afeta diversos grupos populacionais, sendo muito prevalente entre pacientes com doenças cardíacas, considerando que esta condição é comum em pacientes pós acidente vascular encefálico, idosos, aqueles com doenças neurológicas, pacientes críticos pós infarto do miocárdio, miocardiopatia hipertensiva e doença renal crônica1 entre outras condições clínicas1,2. Em pacientes com COVID-19 e que necessitaram a de intubação orotraqueal por mais de 48 horas, a estimativa de disfagia foi de aproximadamente 56%3.

O consumo de líquidos entre pacientes com disfagia é arriscado, tendo em vista o baixo controle oral de alimentos nesta consistência, podendo ocorrer a aspiração e pneumonia1,2. Esta condição é associada à desfechos negativos como maior incidência de internação, atrofia da musculatura respiratória e esquelética, morbidade e mortalidade4.

Assim, a modificação da consistência dos alimentos e bebidas é proposta como uma forma de aumentar o controle oral e a segurança no processo de deglutição2.

A modificação das consistências é realizada por meio de espessantes alimentares2. No mercado brasileiro, há uma grande gama de espessantes que variam em sua composição, podendo conter amido, goma ou ambos. Entre estes, se destacam os espessantes a base de gomas alimentícias, pois alteram a consistência sem alterar cor, odor e sabor5. Tal característica é indispensável, tendo em vista que pacientes disfágicos apresentam altos riscos de desidratação e desnutrição por baixa ingestão hídrica e alimentar devido às alterações organolépticas dos alimentos e bebidas5.

O acompanhamento nutricional tem o papel de garantir a ingestão adequada de nutrientes, evitando tais desfechos negativos como acima mencionados. Pacientes com doenças cardíacas devem ser avaliados ainda em relação à ingestão adequada de sódio, considerando a recomendação de ingestão de 2000mg ao dia.

Considerando que a disfagia é uma doença que acomete diversos grupos populacionais, envolvendo aqueles com doenças crônicas e com possíveis complicações cardiovasculares1,4,5, se destaca a necessidade de avaliar a contribuição de sódio proveniente dos espessantes.

Este artigo teve como objetivo avaliar a contribuição de sódio de diferentes marcas de espessantes a base de goma disponíveis no mercado brasileiro e sua contribuição em uma estimativa de ingestão diária.

Foram avaliadas 5 diferentes marcas de espessantes a base de goma disponíveis no mercado brasileiro, identificados como marca A, B, C, D e E. Os valores de sódio foram analisados em laboratório, determinados por Inductively coupled plasma mass spectrometry (ICP-MS) e conferidos de acordo com o valor declarado em rótulo pelo fabricante.  Foram consideradas as doses necessárias de produto para espessar 1500ml de água nas consistências néctar, mel e pudim, conforme a orientação do fabricante.

Os teores de sódio obtidos em laudo foram condizentes com os valores declarados pelos fabricantes. Assim os resultados consideram os valores de rótulo.

Na tabela 1 estão os resultados de sódio em mg obtidos em 1500ml, nas diferentes consistências.

 Tabela 1. Teor de sódio em mg em 1500ml de água espessada

 

A marca A foi a que apresentou o menor teor de sódio em todas as consistências quando comparado com as demais marcas.

Considerando a recomendação de 2000mg de sódio/dia, é possível verificar que a marca A apresenta contribuição abaixo de 10% em todas as consistências. Já as demais marcas variam na consistência néctar entre 8 e 14%, na consistência mel; entre 17 e 28% e na consistência pudim e entre 27 e 37% da contribuição de sódio.

Tais teores, se avaliados isoladamente podem não representar grandes quantidades de sódio. No entanto, em um contexto alimentar completo, o sódio proveniente do espessante pode acrescentar em muito a ingestão deste nutriente, especialmente entre aqueles que necessitam de maiores restrições de sódio.

No estudo realizado por Almeida e colaboradores, 2013, foram analisados os teores de sódio em 3 diferentes marcas considerando doses de espessantes em 1500ml. O estudo apontou contribuições de até 585mg de sódio ao dia, provenientes de espessantes, apontando que o teor de sódio encontrado em espessantes pode afetar a ingestão diária total em dietas com necessidade de restrição moderada ou grave6.

O consumo de sódio tem sido avaliado por diversos estudos. Entre eles se destaca, o estudo PREvention que envolveu pacientes com alto risco de doença cardiovascular. Neste estudo foi verificado que a ingestão de sódio menor que 2300mg/dia está associada ao menor risco de mortalidade, enquanto indivíduos que aumentaram o consumo de sódio apresentaram aumento no risco de evento cardiovascular em 72%. Autores sugerem, baseados nos resultados do estudo, que indivíduos com alto risco de DCV mantenham ingesta de sódio menor de 2300mg/dia7.

Tendo em vista a alta prevalência de disfagia entre pacientes idosos, assim como de hipertensão, e outras condições clínicas que exigem dietas com restrição de sódio, se faz importante avaliar o teor de sódio nos espessantes. No entanto, esta avaliação não deve ser realizada de forma isolada, mas considerando a ingestão total de sódio diário.

A equipe que assiste ao paciente com disfagia deve considerar, em conjunto, as necessidades específicas do paciente, seja em relação à adaptação da consistência da dieta, seja em relação à composição nutricional, levando em consideração o teor de sódio proveniente do espessante, especialmente nas condições em que a restrição de sódio é necessária devido à condição clínica.

 

REFERÊNCIAS:

  1. Abu-Ghanem, S, Chen, S, Amin, MR. Oropharyngeal Dysphagia in the Elderly: Evaluation and Prevalence. Curr Otorhinolaryngol Rep 2020 Jan; (8):34–42.
  2. Newman R, Vilardell N, Clavé P, Speyer R. Effect of Bolus Viscosity on the Safety and Efficacy of Swallowing and the Kinematics of the Swallow Response in Patients with Oropharyngeal Dysphagia: White Paper by the European Society for Swallowing Disorders (ESSD). Dysphagia 2016 Apr;31(2):232-49.
  3. Frajkova Z, Tedla M, Tedlova E, Suchankova M, Geneid A. Postintubation Dysphagia During COVID-19 Outbreak-Contemporary Review. Dysphagia 2020 Aug;35(4):549-557.
  4. Wirth R, Dziewas R, Beck AM, Clavé P, Hamdy S, Heppner HJ, et al. Oropharyngeal dysphagia in older persons – from pathophysiology to adequate intervention: a review and summary of an international expert meeting. Clin Interv Aging 2016 Feb 23;11:189-208.
  5. Baijens LW, Clavé P, Cras P, Ekberg O, Forster A, Kolb GF, et al. European Society for Swallowing Disorders – European Union Geriatric Medicine Society white paper: oropharyngeal dysphagia as a geriatric syndrome. Clin Interv Aging 2016 Oct 7;11:1403-1428.
  6. Almeida TM, Germini MF, Kovacs C, Soares AM, Magnoni D, Sousa AG. Risk of excessive sodium intake in the use of a thickener for dysphagia. Arq Bras Cardiol. 2013 Jul;101(1):e15-7.
  7. Merino J, Guasch-Ferré M, Martínez-González MA, Corella D, Estruch R, Fitó M, et al. Is complying with the recommendations of sodium intake beneficial for health in individuals at high cardiovascular risk? Findings from the PREDIMED study. Am J Clin Nutr 2015 Mar;101(3):440-8.

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