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Doenças inflamatórias intestinais causam desnutrição em 85% dos pacientes internados

Diarreia e dor abdominal são problemas bem comuns que já acometeram boa parte da população. No entanto, podem também ser sintomas de doenças inflamatórias intestinais (DIIs). Elas podem afetar todo o sistema digestivo, que vai desde a boca até o ânus, mas são mais comuns no intestino e podem impactar de forma significativa a qualidade de vida de uma pessoa — inclusive evoluir para problemas mais graves.

As DIIs são, basicamente, divididas em retocolite ulcerativa inespecífica (RCUI) e doença de Crohn (DC), e tratam-se de doenças crônicas, ou seja, quem sofre desse problema terá que aprender a conviver com os sintomas durante toda a vida, com tratamento contínuo.

Além de acometerem o trato gastrointestinal, são comumente associadas à desnutrição protéico-energética. As alterações nutricionais dependem da extensão e da gravidade com que se manifestam, agravando o prognóstico tanto do paciente em tratamento clínico, quanto daqueles submetidos a cirurgias, prejudicando, ainda, a resposta imune.

 

Desnutrição em pacientes com DIIs

Segundo o documento “Atualização das Orientações Nutricionais para Doença Inflamatória Intestinal”, do Ambulatório de Nutrição e Gastroenterologia do Hospital Universitário de Brasília, ligado à universidade homônima, de 2016, o principal fator que leva a má nutrição em pacientes com DIIs é a redução do consumo alimentar, que pode ser causada pelo receio de se alimentar e causar dor ou diarreia.

Obstruções e fístulas também atrapalham o processo de alimentação, assim como efeitos colaterais de medicamentos usados parar tratar as DIIs. Ainda de acordo com o estudo, a prevalência de desnutrição nos pacientes com DIIs é alta, afetando em média 23% nos pacientes tratados ambulatorialmente e 85% nos pacientes internados. Dessa forma, é de extrema importância uma abordagem multidisciplinar no tratamento desses pacientes, com intervenções nutricionais adequadas.

De acordo com as “Diretrizes de Consenso para o Gerenciamento de Doenças Inflamatórias Intestinais”, do Grupo de Estudo Brasileiro da Doença (GEDIIB), publicado em 2010, a terapia nutricional tem se mostrado como recurso terapêutico auxiliar extremamente útil, atuando diretamente sobre o estado nutricional, na sua manutenção e recuperação. Além disso, de acordo com o documento, entre 80% e 90% dos pacientes internados com Doença de Crohn, e de 60% a 70% dos pacientes internados com retocolite ulcerativa apresentam algum tipo de déficit nutricional.

Há evidências mostrando que o uso da Nutrição Enteral é benéfico para pacientes com DIIs durante a fase ativa da doença, que pode reduzir a ingestão alimentar. O uso da nutrição enteral proporciona ao paciente o fornecimento completo de energia e de nutrientes para sua recuperação, bem como preserva a mucosa intestinal, previne a translocação de bactérias e melhora a imunidade do paciente. Embora a NE para o paciente com DIIs seja uma das escolhas para a recuperação nutricional, o uso de um suplemento via oral também mostra um resultado positivo, além de reduzir a inflamação.

Orientações nutricionais

Segundo o documento do Hospital Universitário de Brasília, as deficiências nutricionais e a própria desnutrição estão ligadas a uma pior resposta ao tratamento, pior prognóstico, piora dos sintomas, descalcificação óssea, perda de massa muscular, entre outros. Portanto, é necessário avaliar com cuidado cada paciente, o tratamento usado e suas possíveis carências nutricionais, para que seja feita uma intervenção personalizada e eficaz.

Quanto mais cedo forem feitos esses procedimentos, melhor para o paciente, diz o estudo. Avaliação antropométrica, exames bioquímicos, anamnese alimentar e exame físico são ferramentas necessárias para mensurar o estado nutricional do paciente em questão. Além disso, o tratamento dietoterápico precisa levar em consideração o grau da doença (leve, moderado ou grave), o estado nutricional do paciente, o acometimento do trato gastrointestinal, a fase da doença (ativa ou em remissão) e a abordagem farmacologia e/ou cirúrgica usada no tratamento.

As orientações nutricionais para DIIs, diz o estudo de Brasília, devem ser específicas para cada fase da doença. Durante a fase ativa, é recomendada a restrição de alguns alimentos. Lactose, sacarose, fibras, alimentos flatulentos, excessos de gorduras e condimentos fortes podem piorar os sintomas da doença, como diarreia e dor.

Além de modificações na dieta, durante a fase ativa da doença, o paciente pode se beneficiar pelo uso de probióticos, que auxiliam a restaurar a microbiota intestinal, que muitas vezes é lesada no curso da doença.

Outro nutriente que se mostrou efetivo nesta fase é a L-glutamina, considerada uma importante fonte energética para os enterócitos e colonócitos, os quais favorecem o bom funcionamento da microbiota intestinal tornando-a mais saudável.

Terapia Nutricional

O estudo Tratamento Nutricional nas Doenças Inflamatórias Intestinais, publicado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), em 2012, avalia que, tanto a retocolite ulcerativa quanto a doença de Crohn causam importantes alterações no estado nutricional, e a terapia nutricional tem como objetivo o controle dos sintomas, a prevenção e a correção da desnutrição e das diversas deficiências nutricionais. Além disso, a TN é importante na redução das sequelas em longo prazo, incluindo o déficit de crescimento em crianças e a osteoporose em adultos.

Na fase ativa da doença, é importante que a alimentação auxilie no controle dos sintomas, como diarreia, dor abdominal, distensão e previna ou reverta a perda de peso através do uso de suplementos nutricionais adequados. O teor de fibras insolúveis e lactose devem ser restritos e a alimentação deve ser fracionada em seis a oito refeições ao dia, contendo pouco volume. A dieta deve ser hipercalórica, pelo aumento das necessidades energéticas em decorrência da inflamação, hiperprotéica, hipolipídica e normoglicídica com restrição de carboidratos simples e alimentos que causam flatulência. O teor de fibras insolúveis e resíduos (lactose, por exemplo) deve ser restrito e a alimentação deve ser fracionada em seis a oito refeições ao dia, contendo pouco volume. As orientações são do estudo da universidade carioca.

Com a melhora clínica do paciente e o início da fase de remissão, podem ser incluídos os carboidratos simples como a sacarose (em quantidade moderada) e a lactose (progressivamente, caso não exista intolerância), deve-se aumentar gradativamente o conteúdo de fibras totais e insolúveis da dieta, mantendo-se moderado o teor de gordura (especialmente de ácidos graxos poliinsaturados ômega-6). As calorias devem ser adequadas ao estado nutricional do paciente, sugere a publicação da UERJ.

Porém, quando a via de alimentação preferencial não for possível, a alimentação via enteral pode ser indicada, avalia o estudo do Hospital Universitário de Brasília. “No ambiente hospitalar, os pacientes costumam estar em um quadro mais grave da doença, apresentando intensos sintomas, dificuldade de alimentação e, muitas vezes, desnutrição. Por isso, geralmente, o cuidado nutricional hospitalar exige a indicação de terapia enteral e, em casos mais graves, parenteral.”

Referências:

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistahupe/article/viewFile/9008/6892

http://revista.hupe.uerj.br/detalhe_artigo.asp?id=355

http://www.gediib.org.br/files/Consensos_gediib_2010.pdf

http://bdm.unb.br/bitstream/10483/13923/1/2016_PrisciladeAtaidesFerreira.pdf

Doenças inflamatórias intestinais: as novidades e os desafios

 

 

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